São João de Meriti: A "chuva recorde" é o álibi perfeito para o descaso
Eles chamarão de evento extremo. Dirão que a natureza foi implacável. Mas na cidade mais densa da América Latina, a catástrofe não cai apenas do céu; ela brota do solo impermeabilizado por décadas de cegueira política.

Vamos parar de fingir surpresa? Toda vez que o céu escurece sobre a Baixada Fluminense, o roteiro se repete com uma precisão burocrática irritante. As águas sobem, os móveis boiam, e as autoridades locais correm para os microfones com a palavra mágica: imprevisível. Será mesmo?
Adotar a postura do analista cético aqui não é pessimismo, é uma questão de ler o mapa. São João de Meriti não é uma vítima acidental das mudanças climáticas, embora elas agravem o cenário; a cidade é refém de um cálculo urbano suicida.
"Onde há concreto cobrindo 90% do solo, a água não tem para onde ir. Culpar a chuva é como culpar a gravidade pela queda de um avião sem motor."
O título de "Formigueiro das Américas" (uma densidade demográfica sufocante de mais de 13 mil habitantes por km²) sempre foi ostentado com certo orgulho populista, mas esconde a armadilha. Cada metro quadrado cimentado para construir um puxadinho ou uma loja é um metro a menos de drenagem. O Rio Sarapuí e o Rio Pavuna não transbordam por capricho; eles vomitam o que a cidade não consegue engolir.
A aritmética do desastre
Quando analisamos os orçamentos municipais e estaduais da última década, a conta não fecha. Há uma desproporção gritante entre o marketing de "obras de verão" e a engenharia hidráulica real necessária. O que vemos são operações cosméticas de limpeza de margens (que rendem boas fotos para redes sociais) em vez de dragagens profundas e reformulação do sistema de esgoto.
| A Narrativa Oficial | A Realidade no Chão |
|---|---|
| "Volume de chuva histórico acima da média." | Chuvas fortes são o padrão tropical; o sistema de drenagem é que parou nos anos 80. |
| "Estamos limpando os rios preventivamente." | A limpeza superficial não resolve o assoreamento crônico do fundo dos rios Sarapuí e Pavuna. |
| "A culpa é do lixo jogado pela população." | A coleta de lixo é irregular e falha em áreas periféricas, forçando o descarte inadequado. |
A emergência climática serve, ironicamente, como um escudo conveniente para gestores incompetentes. Se "o clima está louco", ninguém é culpado, certo? Errado. A intensificação das chuvas exige mais infraestrutura, não desculpas mais elaboradas. O que acontece em Vilar dos Teles ou no Jardim Metrópole não é força maior; é negligência maior.
E quem paga essa fatura? Não são os gabinetes refrigerados. A economia local, baseada em pequenos comércios e serviços, sofre um infarto a cada tempestade. O trabalhador meritiense perde o sofá (pela terceira vez no ano) e ainda acumula dívidas no cartão para repor o básico, girando uma roda de pobreza que a água barrenta lubrifica.
Enquanto tratarmos enchentes em áreas ultra-adensadas apenas com distribuição de cestas básicas pós-tragédia e não com a implosão do modelo de urbanização atual, continuaremos enxugando gelo. Ou melhor, enxugando lama.
Pas de langue de bois sur le bois qui brûle. L'écologie radicale pour ceux qui veulent voir la vérité en face. Climat, biodiversité et solutions durables.


