Meio Ambiente

São João de Meriti: A "chuva recorde" é o álibi perfeito para o descaso

Eles chamarão de evento extremo. Dirão que a natureza foi implacável. Mas na cidade mais densa da América Latina, a catástrofe não cai apenas do céu; ela brota do solo impermeabilizado por décadas de cegueira política.

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Ana Paula
24 de fevereiro de 2026 às 17:023 min de leitura
São João de Meriti: A "chuva recorde" é o álibi perfeito para o descaso

Vamos parar de fingir surpresa? Toda vez que o céu escurece sobre a Baixada Fluminense, o roteiro se repete com uma precisão burocrática irritante. As águas sobem, os móveis boiam, e as autoridades locais correm para os microfones com a palavra mágica: imprevisível. Será mesmo?

Adotar a postura do analista cético aqui não é pessimismo, é uma questão de ler o mapa. São João de Meriti não é uma vítima acidental das mudanças climáticas, embora elas agravem o cenário; a cidade é refém de um cálculo urbano suicida.

"Onde há concreto cobrindo 90% do solo, a água não tem para onde ir. Culpar a chuva é como culpar a gravidade pela queda de um avião sem motor."

O título de "Formigueiro das Américas" (uma densidade demográfica sufocante de mais de 13 mil habitantes por km²) sempre foi ostentado com certo orgulho populista, mas esconde a armadilha. Cada metro quadrado cimentado para construir um puxadinho ou uma loja é um metro a menos de drenagem. O Rio Sarapuí e o Rio Pavuna não transbordam por capricho; eles vomitam o que a cidade não consegue engolir.

A aritmética do desastre

Quando analisamos os orçamentos municipais e estaduais da última década, a conta não fecha. Há uma desproporção gritante entre o marketing de "obras de verão" e a engenharia hidráulica real necessária. O que vemos são operações cosméticas de limpeza de margens (que rendem boas fotos para redes sociais) em vez de dragagens profundas e reformulação do sistema de esgoto.

A Narrativa OficialA Realidade no Chão
"Volume de chuva histórico acima da média."Chuvas fortes são o padrão tropical; o sistema de drenagem é que parou nos anos 80.
"Estamos limpando os rios preventivamente."A limpeza superficial não resolve o assoreamento crônico do fundo dos rios Sarapuí e Pavuna.
"A culpa é do lixo jogado pela população."A coleta de lixo é irregular e falha em áreas periféricas, forçando o descarte inadequado.

A emergência climática serve, ironicamente, como um escudo conveniente para gestores incompetentes. Se "o clima está louco", ninguém é culpado, certo? Errado. A intensificação das chuvas exige mais infraestrutura, não desculpas mais elaboradas. O que acontece em Vilar dos Teles ou no Jardim Metrópole não é força maior; é negligência maior.

E quem paga essa fatura? Não são os gabinetes refrigerados. A economia local, baseada em pequenos comércios e serviços, sofre um infarto a cada tempestade. O trabalhador meritiense perde o sofá (pela terceira vez no ano) e ainda acumula dívidas no cartão para repor o básico, girando uma roda de pobreza que a água barrenta lubrifica.

Enquanto tratarmos enchentes em áreas ultra-adensadas apenas com distribuição de cestas básicas pós-tragédia e não com a implosão do modelo de urbanização atual, continuaremos enxugando gelo. Ou melhor, enxugando lama.

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Ana Paula

Jornalista especializado em Meio Ambiente. Apaixonado por analisar as tendências atuais.