Arábia Saudita: O castelo de cartas bilionário do futebol vai desabar?
O projeto de Riad prometeu desbancar a Europa, mas os números frios das arquibancadas e a insatisfação abafada nos bastidores contam uma história bem diferente da narrativa oficial.

Vamos ser francos por um minuto e ignorar os press releases brilhantes que chegam de Riad. Quando Cristiano Ronaldo pousou no deserto, a narrativa era clara: uma mudança de eixo tectônica no esporte mais popular do mundo. Mas, passados alguns anos do início dessa "revolução", o que temos de concreto além de contas bancárias infladas e vídeos de highlights no TikTok?
A Saudi Pro League (SPL) não é um fenômeno orgânico. É uma injeção de adrenalina financeira em um corpo que, talvez, não tenha estrutura muscular para sustentar o peso. (E olha que estamos falando de muito peso). A estratégia do Fundo de Investimento Público (PIF) é clara: comprar relevância. Mas a relevância se compra ou se constrói?
A miragem dos números
Se olharmos apenas para a coluna de "gastos", a liga é um sucesso retumbante. Ninguém nega o poder do petrodólar. No entanto, o analista atento precisa olhar para a outra coluna: a da receita real e do engajamento genuíno. Não estou falando de likes no Instagram. Estou falando de pessoas pagando ingresso e emissoras de TV brigando por direitos de transmissão em mercados que não sejam o Oriente Médio.
A realidade nua e crua? Tirando os jogos dos quatro grandes clubes estatais (Al-Hilal, Al-Nassr, Al-Ittihad, Al-Ahli), a média de público de algumas partidas rivaliza com a terceira divisão do campeonato paulista. Estádios com capacidade para milhares recebendo algumas centenas de gatos pingados para ver estrelas europeias em pré-aposentadoria.
| Aspecto | Narrativa Oficial (Vision 2030) | Realidade Observada |
|---|---|---|
| Atração de Talentos | "Os melhores querem vir para cá" | Salários 4x a 10x acima do mercado são o único atrativo real. |
| Público | Paixão nacional fervorosa | Disparidade brutal: Jogos lotados vs. estádios vazios (média geral baixa). |
| Sustentabilidade | Ecossistema autossuficiente | Dependência total do subsídio estatal (PIF). Sem o governo, a liga quebra amanhã. |
O Fantasma da China
Lembram-se da Superliga Chinesa? Oscar, Hulk, Tevez. A promessa era a mesma: desbancar a Europa até 2050. Onde eles estão agora? O modelo implodiu assim que a torneira do estado (e das imobiliárias) fechou. A Arábia Saudita tem mais dinheiro, sim, e uma reserva de petróleo que a China não tinha para queimar no futebol. Mas a premissa econômica é assustadoramente similar: um mercado artificialmente inflacionado que não gera retorno sobre o investimento.
"Você pode importar o show, mas não pode importar a alma do jogo. A tradição não está à venda na prateleira do duty-free."
Além disso, há o fator humano. O êxodo silencioso de jogadores (como Jordan Henderson, que fugiu na primeira oportunidade) e as reclamações em off sobre o estilo de vida, o calor insuportável e a falta de competitividade real mostram que a "gaiola de ouro" tem grades bem visíveis.
O verdadeiro objetivo: 2034
Mas, sejamos cínicos (ou realistas): talvez a sustentabilidade da liga nem seja o ponto. A SPL pode ser apenas um "loss leader" — um produto vendido com prejuízo para atrair clientes para a loja. A "loja", neste caso, é a imagem da Arábia Saudita e a Copa do Mundo de 2034. Se a liga falir em 2035, depois de ter garantido o Mundial e limpado a imagem do país (o famoso sportswashing), o investimento terá valido a pena para a família real. Para o futebol? Provavelmente terá sido apenas uma bolha cara e extravagante.
O que ninguém diz é o impacto disso no desenvolvimento local. Ao encher os times de estrangeiros caros, onde jogam os jovens sauditas? A seleção que chocou o mundo ao vencer a Argentina em 2022 pode estar, ironicamente, assinando sua sentença de mediocridade ao impedir que seus talentos locais tenham minutos em campo.


