Ilia Malinin: O Ídolo que o TikTok Encomendou ao Gelo
Ele quebrou a física antes de ter idade para beber. Como o 'Quad God' transformou a patinação artística em um videogame e o que isso revela sobre nossa fome por heróis virais.

Lembro-me distintamente do som. Não da música clássica genérica que ecoava nos alto-falantes da arena, mas do som da lâmina rasgando o gelo na aterrissagem. Era setembro de 2022, e um garoto de 17 anos, com um corte de cabelo questionável e a audácia de quem não conhece o medo, acabava de fazer o impossível: o primeiro Quadruple Axel (4A) da história em competição.
Aquele momento não foi apenas um recorde quebrado; foi o funeral da velha guarda e o batismo de uma nova era. Ilia Malinin não é apenas um patinador talentoso. Ele é o sintoma perfeito do que o esporte global se tornou: uma busca incessante pelo clipe de 15 segundos que fará o mundo parar de rolar o feed.
"Eu não penso se vai dar certo. Eu apenas subo no ar e deixo a física brigar com a gravidade." – Ilia Malinin (em entrevista informal após o feito).
Durante anos, a patinação artística viveu sob a sombra elegante e quase divina de Yuzuru Hanyu. O japonês era poesia em movimento, um ídolo que atraía ursinhos de pelúcia e lágrimas. Hanyu tentou o 4A e falhou. O mundo chorou com ele. Então, chega Malinin, um americano filho de imigrantes uzbeques, que trata a pista de gelo não como um palco de teatro, mas como um servidor de Fortnite. Ele gamificou o esporte.
Essa transição diz muito sobre nós, o público. Estamos impacientes. A narrativa do "artista sofredor" perdeu espaço para o "super-herói técnico". Queremos ver a barra de energia encher, o combo ser ativado. Malinin entendeu isso (talvez instintivamente). Ele se autodenominou "Quad God" no Instagram antes mesmo de ter o ouro mundial no pescoço. Arrogância? Talvez. Marketing genial? Com certeza.
A Morte da Nuance?
Os puristas torcem o nariz. Dizem que falta alma, que seus braços são rígidos, que a interpretação é secundária. Eles não estão errados, mas estão atrasados. O sistema de pontuação da ISU (União Internacional de Patinação) favorece a matemática. E a matemática de Malinin é brutal.
| Critério | Era Hanyu (O Artista) | Era Malinin (O Motor) |
|---|---|---|
| Foco Principal | Fluidez, transições, conexão emocional | Altura do salto, velocidade de rotação, risco extremo |
| O que viraliza? | Programas completos (4 min) | Clipes de saltos (10 seg) |
| Status | Semideus intocável | Influenciador acessível |
O que Malinin representa é a vitória do "conteúdo" sobre a "obra". No esporte global, seja no basquete com os arremessos do meio da quadra de Curry ou no futebol com os dribles para o TikTok, a busca por novos ídolos passa pela capacidade de chocar instantaneamente. Não temos mais tempo para apreciar a construção de uma jornada; queremos o clímax agora.
Mas, aqui vai a reviravolta (a vida adora uma): no último Campeonato Mundial, Malinin não apenas pulou. Ele interpretou. Ao som da trilha de Succession, ele mostrou que está aprendendo a linguagem dos humanos, não apenas a das máquinas. Se ele conseguir unir a técnica alienígena com a arte humana, não estaremos apenas diante de um novo ídolo viral.
Estaremos diante do maior patinador de todos os tempos, quer o algoritmo queira, quer não.


