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Flamengo S.A.: Quando a Paixão Vira PIB e o Torcedor Vira Cliente

Não é apenas futebol, é uma teologia econômica. Como o clube mais popular do Brasil navega (ou naufraga) entre a elitização das arquibancadas e a manutenção da sua alma popular.

TS
Thiago Silva
3 de fevereiro de 2026 às 08:013 min de leitura
Flamengo S.A.: Quando a Paixão Vira PIB e o Torcedor Vira Cliente

Era uma quarta-feira chuvosa de 2019, mas o calor humano dentro do vagão da Linha 2 do Metrô Rio desafiava as leis da termodinâmica. Ali, imprensado entre um executivo de terno mal-ajustado e um vendedor ambulante de cerveja, presenciei a transubstanciação. O executivo, ao ouvir o primeiro acorde de um canto vindo do fundo do vagão, afrouxou a gravata. O vendedor largou o isopor. Em segundos, não havia mais classes sociais, não havia CEP, não havia dívida no Serasa. Havia apenas a massa rubro-negra. (Uma cena bonita, claro, até você tentar respirar).

Essa anedota ilustra o que chamamos de "A Nação". Mas algo mudou nessa equação nos últimos anos. E é aqui que a magia tropeça na planilha de Excel.

"O Flamengo tem uma vocação hegemônica que nenhum outro clube brasileiro possui. Mas a hegemonia custa caro, e a conta chegou para quem sempre pagou com a garganta, e não com o cartão de crédito."

O Paradoxo da Riqueza

O Flamengo deixou de ser apenas um clube de regatas para se tornar uma holding de entretenimento. Os números são frios, mas contam uma história de redenção administrativa que faria qualquer CEO de Wall Street sorrir. Saímos da era do "devo, não nego, pago quando puder" para superávits bilionários.

Mas o que isso significa para o tecido social do Rio de Janeiro? O fenômeno flamenguista sempre se alimentou da narrativa de ser o "time do povo". O paradoxo reside no fato de que, para montar os esquadrões que o povo exige, o clube precisou precificar esse mesmo povo para fora dos setores nobres do Maracanã. É a gentrificação do grito de gol.

Antes e Depois: A Metamorfose Rubro-Negra

Para entender a magnitude dessa transformação (e o risco que ela carrega), basta olhar para dois momentos distintos da história recente do clube:

CritérioO Flamengo "Raiz" (anos 90/00)O Flamengo "S.A." (Atual)
GestãoAmadora, baseada em paixão e improvisoProfissional, baseada em dados e marketing
EstádioGeral do Maracanã (acessível)Arenas multiuso (ticket médio alto)
ContrataçõesApostas e medalhões em fim de carreiraEstrelas internacionais no auge físico
SentimentoSofrimento compartilhadoExigência de vitória obrigatória

A Identidade em Jogo

Você percebe a tensão no ar? O torcedor que antes se orgulhava de "ganhar na raça" hoje exige contratações de nível europeu, mas reclama (com razão) quando o ingresso custa 10% do salário mínimo. O Flamengo tornou-se refém do seu próprio sucesso financeiro.

O clube hoje opera como uma multinacional que vende paixão enlatada. Funciona? Os troféus dizem que sim. Mas a que custo cultural? Quando o Maracanã se torna um teatro silencioso de espectadores filmando com smartphones, algo daquela mística do vagão do metrô se perde. Aquele executivo e aquele vendedor de cerveja talvez não consigam mais se abraçar na arquibancada, simplesmente porque um deles não consegue passar pela catraca.

O futuro do Flamengo não depende mais apenas da bola entrar ou não. Depende de como a instituição vai equilibrar essa balança cruel: continuar sendo uma potência financeira global sem esquecer que seu maior acionista, moralmente falando, ainda é o povo que pega o trem lotado na Central do Brasil.

TS
Thiago Silva

Jornalista especializado em Esporte. Apaixonado por analisar as tendências atuais.