Política

Guerra no Irã: A ilusão da 'neutralidade' brasileira e a fatura oculta

O Itamaraty discursa sobre a paz, mas o mercado precifica o caos. Enquanto Brasília joga xadrez retórico no Oriente Médio, a bomba-relógio do diesel prepara o bote.

RS
Roberto Silva
5 de março de 2026 às 05:023 min de leitura
Guerra no Irã: A ilusão da 'neutralidade' brasileira e a fatura oculta

O Palácio do Itamaraty gosta de se projetar como o farol do Sul Global. Diante da escalada bélica entre Estados Unidos, Israel e o Irã (marcada pelo assassinato de Ali Khamenei), o discurso oficial é sedutor: o Brasil é o grande fiador do diálogo, abrigado em sua blindagem diplomática histórica. Soa lindo no papel. Mas será que a matemática retórica aguenta o choque com a realidade econômica cruel?

Brasília apressou-se em condenar os bombardeios americanos e israelenses, alegando grave violação de soberania. (Uma postura compreensível do ponto de vista do direito internacional, porém curiosamente ruidosa para quem prega a estrita não intervenção). Ao mesmo tempo, o governo federal infla o peito por ter patrocinado a entrada de Teerã no Brics no ano passado. Qual é o real preço dessa aproximação nas sombras? A narrativa oficial tenta isolar a posição política das parcerias comerciais. Washington, entretanto, não costuma jogar esse jogo. Donald Trump já ameaçou taxar em 25% todos os parceiros econômicos que mantiverem laços ativos com o Irã.

A equipe do ministro Fernando Haddad jura de pés juntos que a turbulência é apenas um ruído passageiro.

"Ainda temos colchões aqui para ter um impacto mais óbvio no Brasil. A gente tem uma conta de petróleo superavitária", afirmam os analistas e porta-vozes otimistas.

Sério mesmo? O barril do petróleo tipo Brent rompeu confortavelmente a perigosa barreira dos US$ 85. O óleo diesel no mercado europeu opera com prêmios astronômicos. Nas refinarias da Petrobras, no entanto, a defasagem dos preços já bate a assombrosa marca de 25% em relação à paridade de importação internacional. Quem vai assinar esse cheque multibilionário quando a estatal for forçada a repassar os verdadeiros custos das refinarias? O frete rodoviário, artéria de nossa logística, já sente o oxigênio acabar.

A armadilha invisível

O que pouquíssimos ousam cochichar nos corredores atapetados da Praça dos Três Poderes é que o próprio Brasil armou sua arapuca geopolítica perfeita. A guerra afeta infinitamente mais do que a cotação abstrata de uma commodity.

👀 Onde está a verdadeira vulnerabilidade nacional oculta?
No agronegócio. O Brasil exportou o equivalente a expressivos US$ 2,9 bilhões para o Irã em 2025 (com milho e soja dominando avassaladores 87% das transações). Simultaneamente, as lavouras dependem visceralmente dos fertilizantes importados do Oriente Médio (US$ 2,2 bilhões de dólares apenas em 2025). Se a Casa Branca cumprir a promessa punitiva de 25% contra aliados comerciais de Teerã, o produtor rural brasileiro perderá margem bilionária no Ocidente ou terá que abandonar seu lucrativo cliente persa do dia para a noite.

A equação simplesmente não fecha. Brincar de pioneiro do não-alinhamento na distante década de 1950 era quase poético. Fazer isso em 2026, com cadeias globais de suprimento estressadas e tarifas predatórias apontadas diretamente para as nossas exportações, beira a teimosia crônica. A diplomacia do barulho pode até arrancar aplausos e sorrisos de complacência em círculos de especialistas ou fóruns acadêmicos. A conta, todavia, não será paga com palmas. Ela chegará sem qualquer aviso nas bombas dos postos nas estradas e nos porões apertados dos navios graneleiros. Até quando a Esplanada dos Ministérios conseguirá fingir que as explosões do outro lado do mundo não quebram vidraças aqui dentro?

RS
Roberto Silva

Jornalista especializado em Política. Apaixonado por analisar as tendências atuais.