Sociedade

O grande assalto: para onde foram as suas últimas 24 horas?

A matemática é cruel. Enquanto você dorme, corporações lucram com os fragmentos da sua atenção. Afinal, quem é o verdadeiro dono do seu relógio?

MS
Maria Souza
26 de fevereiro de 2026 às 11:023 min de leitura
O grande assalto: para onde foram as suas últimas 24 horas?

Mariana desliga o alarme às 6h30. Ela tem um ritual fixo: esticar os braços, respirar fundo e dar aquela "olhadinha rápida" nas notificações. Apenas para não perder nada. Quando ela finalmente tira os pés da cama, o relógio marca 7h18. Quarenta e oito minutos de sua vida desapareceram em um buraco negro de vídeos curtos, debates políticos rasos e anúncios de tênis de corrida.

Onde foi parar esse tempo?

Nós fomos condicionados a encarar o relógio como um capataz rígido, mas a verdade é muito mais ácida. (Você já reparou como o termo 'passar o tempo' flerta perigosamente com 'gastar dinheiro'?). A atenção humana tornou-se o petróleo bruto do nosso século. E a extração dessa riqueza invisível está acontecendo agora mesmo, através dos seus polegares.

"Se você não está pagando pelo produto, o produto é você. E o que eles vendem não são os seus dados, mas o tempo exato em que a sua retina fica refém da tela."

É exatamente aqui que a engrenagem intelectual falha para a maioria de nós. Não se trata de uma simples distração inofensiva. Trata-se de um design predatório de comportamento. Os desenvolvedores na Califórnia mapearam os atalhos neurológicos do seu cérebro melhor do que qualquer psicanalista. Eles sabem o peso exato de uma curtida, o brilho milimétrico de um ícone vermelho. Tudo é feito para roubar o único recurso que você não pode estocar.

A nova divisão de classes: os donos das horas

O que pouco se admite nas palestras brilhantes sobre alta performance é que a perda de tempo deixou de ser uma mera questão de foco individual para se consagrar como um verdadeiro abismo de classe social. O tempo livre é o artigo de luxo supremo.

A elite global compra horas todos os dias. Contratam assistentes, motoristas, chefs de cozinha e, sobretudo, adquirem as versões 'Premium' que eliminam qualquer tipo de interrupção ou anúncio publicitário em suas navegações. Do outro lado da trincheira, a classe trabalhadora paga o pedágio corporativo com seus próprios minutos de vida. A publicidade compulsória é o imposto cobrado daqueles que não têm capital suficiente para recomprar a própria paz.

👀 Quem realmente lucra com os seus minutos perdidos?
Plataformas da Alphabet e da Meta convertem cada segundo da sua rolagem de tela em pontos de dados valiosos. Um usuário médio ocidental entrega mais de 2 horas diárias para aplicativos gratuitos, alimentando uma máquina que fatura bilhões em receita de publicidade hiper-direcionada. Você não está apenas procrastinando; você é um operário não-remunerado do algoritmo.

Por que aceitamos esse acordo tácito de submissão? A resposta esbarra no cansaço. O esgotamento físico e mental nos empurra fatalmente para o entretenimento mais barato e acessível. Depois de enfrentar horas de transporte público e jornadas extenuantes, o rolar infinito na tela de vidro é o único refúgio anestésico que não exige nenhuma caloria extra.

O roubo do seu dia nunca acontece com explosões ou tragédias homéricas. Ele ocorre em fatias mortais de três segundos. Um vídeo aleatório aqui. Uma dancinha esquecível ali. Uma polêmica estéril acolá. A verdadeira rebelião, portanto, não exige a quebra de servidores ou manifestações nas ruas. Ela começa no milissegundo em que você decide, deliberadamente, colocar o aparelho virado para baixo na mesa e encarar a parede. O tédio tornou-se o mais puro ato de resistência.

MS
Maria Souza

Jornalista especializado em Sociedade. Apaixonado por analisar as tendências atuais.