Presidenciais 2026: A coreografia do medo e a vitória da apatia
Acordamos com um novo inquilino em Belém, mas a ressaca democrática é palpável. A vitória esmagadora de António José Seguro não é um plebiscito de esperança, é apenas o suspiro de alívio de um país que votou com uma arma apontada à cabeça.

A festa foi bonita na televisão, não foi? Bandeiras agitadas, discursos sobre a "resiliência da democracia" e aquele ar solene de quem acabou de salvar a República. Mas, se desligarmos o som e olharmos para os números frios desta manhã de segunda-feira, o cenário é desolador. António José Seguro é o novo Presidente da República Portuguesa. Vitória histórica? Talvez nos gráficos de barras. Na realidade das ruas, é a vitória do "antes ele do que o outro".
Não nos enganemos: o que aconteceu ontem não foi uma escolha. Foi uma tomada de reféns.
⚡ O essencial
O Cenário: António José Seguro venceu a segunda volta das presidenciais com cerca de 69% dos votos contra André Ventura.
A Ilusão: A abstenção "baixou" tecnicamente para 47%, mas continua a ser um sinal gritante de que quase metade do país se recusa a participar neste teatro.
O Significado: O voto não foi em Seguro, mas contra Ventura. O "Mal Menor" tornou-se a única política de Estado viável em Portugal.
A narrativa oficial vai tentar vender-nos a ideia de que Portugal rejeitou o extremismo com convicção. Será? Ou será que o eleitorado, exausto de crises legislativas sucessivas e governos de curta duração, limitou-se a carregar no botão de pânico? O Chega e André Ventura, paradoxalmente, são os melhores cabos eleitorais do sistema que dizem combater. Sem o espantalho do caos, teria um candidato tão cinzento quanto Seguro mobilizado quase 70% dos votantes? (Permitam-me duvidar).
A aritmética do vazio
Vamos dissecar o cadáver desta eleição. A abstenção, que rondou os 47%, é celebrada como uma "melhoria" face a 2021. É preciso ter a barra muito baixa para aplaudir o facto de apenas um em cada dois portugueses se dar ao trabalho de escolher o Chefe de Estado. Num país onde o Presidente tem o poder da "bomba atómica" (a dissolução do Parlamento), metade da população simplesmente encolheu os ombros.
E porquê? Porque a oferta política transformou-se numa binariedade tóxica. De um lado, o tecnocrata do aparelho socialista, o homem que "fala manso" e promete não fazer ondas; do outro, o incendiário de serviço. Onde estão as ideias? Onde está o projeto de país para 2030? Ficaram na gaveta, abafados pelo ruído dos insultos e das acusações de "fascismo" versus "socialismo corrupto".
| Indicador | Mário Soares (1986 - 2ª Volta) | António J. Seguro (2026 - 2ª Volta) |
|---|---|---|
| Adversário | Freitas do Amaral (Direita Conservadora) | André Ventura (Direita Radical) |
| Natureza do Voto | Ideológico / Convergência à Esquerda | Sanitário / Bloqueio |
| Contexto Social | Entrada na CEE, esperança | Crise habitacional, apatia, descrédito |
| Percentagem (aprox.) | 51% | 69% |
A tabela acima expõe a farsa. Soares venceu numa batalha de ideias (goste-se ou não). Seguro venceu por W.O. moral. O seu mandato nasce ferido de legitimidade popular genuína. Ele é o Presidente do "não". Não ao Ventura, não à instabilidade, não ao medo. Mas um Presidente pode governar apenas com "nãos"?
O que muda de verdade? (Spoiler: Nada)
Para o cidadão comum — aquele que hoje apanhou o metro lotado em Lisboa ou que continua à espera de uma consulta no SNS no Alentejo —, esta eleição é irrelevante. O sistema político português blindou-se. A eleição de Seguro garante que as ondas de choque serão amortecidas, que a coabitação com o governo (seja ele qual for nos próximos meses) será pastosa, previsível, sonolenta.
A apatia não é um defeito do povo português; é uma resposta racional a um sistema que deixou de entregar resultados. Ao celebrarmos a derrota do "populismo", esquecemos de perguntar: porque é que ele cresceu tanto em primeiro lugar? Enquanto festejam em Belém com champanhe morno, a raiva que alimentou os 30% de Ventura não desapareceu. Ela apenas voltou para casa, sentou-se no sofá e aguarda, silenciosa, pela próxima oportunidade de virar a mesa.
"A democracia morre não quando as pessoas deixam de votar, mas quando votam apenas para evitar o pior."
Seguro entra no Palácio de Belém não como um líder inspirador, mas como um guarda-noturno contratado para garantir que ninguém parte os vidros enquanto a elite dorme. Até quando este sonífero vai funcionar?


