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Bangu x Maricá: O dia em que o Jogo do Bicho colidiu com os Royalties do Petróleo

Esqueça o Fla-Flu. A verdadeira batalha pelo controle narrativo do Rio de Janeiro acontece longe do Maracanã, onde a velha contravenção encara a nova riqueza estatal.

MC
Myriam CohenJournaliste
21 janvier 2026 à 20:013 min de lecture
Bangu x Maricá: O dia em que o Jogo do Bicho colidiu com os Royalties do Petróleo

Não se enganem com a tabela da Série A ou com os holofotes do Maracanã. Quem quiser entender para onde o Rio de Janeiro está caminhando (ou rastejando) precisa pegar a Avenida Brasil, dobrar à esquerda em direção à Zona Oeste ou seguir direto pela ponte até a Região dos Lagos. É no confronto silencioso, mas brutal, entre Bangu e Maricá que a verdadeira geopolítica fluminense se desenha. E não estou falando de 4-3-3.

De um lado, temos o Bangu Atlético Clube. O gigante de Moça Bonita. O clube que carrega, cravado no peito e na história, a herança do "Doutor" Castor de Andrade. É a representação máxima do subúrbio carioca do século XX: calor insuportável, uma relação promíscua porém funcional entre o ilícito e o popular, e uma identidade forjada no suor da fábrica de tecidos. O Bangu é o Rio que foi, o Rio da malandragem romântica (se é que podemos chamar assim), onde o poder emanava das esquinas e dos apontadores do bicho.

"O futebol no Rio nunca foi apenas esporte; sempre foi uma máquina de lavar reputações e estender domínios territoriais."

Do outro lado do ringue, surge o Maricá FC. Ou deveríamos dizer, o "braço esportivo" de uma das prefeituras mais ricas do Brasil? (Graças aos royalties do petróleo, claro). Aqui, o modelo é outro. Não há um bicheiro carismático jogando dinheiro para a torcida. Há planejamento estatal, ônibus tarifa zero levando torcedores e uma cidade que tenta se vender como a "Utopia Tropical". Maricá não quer ser apenas uma cidade dormitório; ela quer ter hino, bandeira e, fundamentalmente, um time que legitime sua ascensão como novo polo de poder.

Mas o que esse duelo nos diz, afinal? Que o eixo de influência está migrando. O subúrbio tradicional do Rio, estrangulado pela ausência do Estado e refém de milícias, olha com desdém e inveja para a vizinha rica que ascendeu socialmente.

CritérioModelo Bangu (O Tradicional)Modelo Maricá (O Emergente)
FinanciamentoHistoricamente ligado ao Jogo do Bicho e patronato pessoal.Forte injeção de capital indireto via poder público e royalties.
IdentidadeOrgulho operário, "Raiz", calor da Zona Oeste.Identidade construída, cosmopolitismo periférico.
TerritórioManutenção de um feudo histórico decadente.Expansão de uma nova "Cidade-Estado".

É uma disputa de narrativas. O Bangu resiste como o último bastião de um Rio onde a autoridade se conquistava no grito e no carisma. Maricá avança como o protótipo de um futuro onde o dinheiro público tenta comprar a alma que o tempo (ainda) não lhe deu. O cético aqui se pergunta: quando o petróleo acabar, o Maricá FC terá raízes profundas o suficiente para sobreviver? Ou será apenas mais uma carcaça de elefante branco, como tantos estádios da Copa?

Enquanto o Bangu joga pela memória, Maricá joga pela hegemonia. E no meio disso tudo, o torcedor? Bem, ele continua sendo apenas um figurante na disputa de egos de quem realmente manda no jogo.

MC
Myriam CohenJournaliste

Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.