Juliano Cazarré: O Contra-Roteiro de um Galã Improvável
Enquanto a classe artística recita um script progressista, Cazarré reza o terço ao vivo. Como um pai de seis filhos se tornou o ponto de fricção favorito da guerra cultural brasileira?

Imagine a cena: bastidores dos Estúdios Globo, o antigo Projac. De um lado, rodas de conversa sobre linguagem neutra e o último manifesto político da classe. Do outro, num canto silencioso do camarim, um homem segura um terço gasto entre os dedos, murmurando ave-marias antes de entrar em cena para viver um peão bronco ou um vilão carismático. Juliano Cazarré não está apenas interpretando; ele está resistindo.
Para entender o fenômeno Cazarré, é preciso esquecer por um momento as manchetes estridentes do Twitter (ou X, para os puristas). A história aqui não é sobre um ator que "causa polêmica", mas sobre um homem que decidiu viver sua vida privada com a mesma intensidade dramática de suas personagens, só que na contramão de tudo o que seus pares pregam.
“Em um meio onde a imagem é tudo, escolher a impopularidade por convicção é o ato mais punk que existe.”
Ele se tornou, quase involuntariamente, o avatar de um Brasil profundo que a televisão finge não ver, mas que assiste à novela das nove. Quando Cazarré fala sobre masculinidade, paternidade responsável e fé católica ortodoxa, ele não está falando para a bolha do Leblon. Ele está dialogando com o motorista de aplicativo, com a dona de casa do interior de Goiás, com gente que se sente órfã de representatividade moral na tela grande.
Mas o roteiro da vida real tem reviravoltas cruéis. A saga da pequena Maria Guilhermina, sua filha nascida com uma cardiopatia rara, transformou o "vilão conservador" das redes sociais em um pai de carne e osso, vulnerável e resiliente. Foi o momento em que a ideologia precisou dar espaço à humanidade. (Até os críticos mais ferozes tiveram que baixar as armas diante de um pai pedindo orações na UTI).
👀 Por que a Globo não o "cancela"?
É a pergunta de um milhão de reais. A resposta é pragmática: Talento e Audiência. Cazarré entrega. Seja como o Alcides de Pantanal ou em papéis mais densos, ele possui uma visceralidade que falta aos atores de laboratório. Além disso, a emissora sabe que demitir alguém por convicções religiosas seria um tiro no pé corporativo, alienando ainda mais a parcela conservadora da audiência que ela tenta reconquistar.
O que fascina — e irrita — é que ele não pede desculpas. Não há notas de esclarecimento, não há recuos estratégicos. Em um tempo de retratações constantes, a firmeza de Cazarré soa quase exótica. Ele encarna o artista que se recusa a ser um panfleto ambulante das causas do momento, preferindo ser um monumento às tradições antigas.
Isso incomoda? Muito. Deveria? Talvez. Mas a presença dele no horário nobre nos força a encarar uma verdade desconfortável: o Brasil não é um monólito progressista. O país é uma colcha de retalhos onde cabem o ativismo de vanguarda e o terço rezado em latim. E Cazarré, gostem ou não, é o lembrete diário de que a arte não precisa de consenso para existir; ela precisa apenas de verdade. E a dele, por mais que doa em alguns ouvidos, é inegociável.
Snob ? Peut-être. Passionné ? Sûrement. Je trie le bon grain de l'ivraie culturelle avec une subjectivité assumée. Cinéma, musique, arts : je tranche.

