O Crepúsculo do 'Padrão Globo': A Matemática Cruel da Atenção Fragmentada
Enquanto os releases corporativos celebram a 'ressignificação' da TV aberta, os números frios contam outra história. A Vênus Platinada não luta apenas contra o streaming, mas contra a irrelevância geracional.

Alguém ainda acredita na hegemonia absoluta do Plim-Plim? Se você ler os relatórios anuais voltados para o mercado publicitário, a resposta é um sonoro e otimista "sim". A narrativa oficial é sedutora: a Globo seria a única capaz de falar com 100 milhões de brasileiros simultaneamente. Mas, como analista que prefere a frieza das planilhas ao calor do marketing, permito-me duvidar. O império não caiu, mas as rachaduras no trono são visíveis a olho nu.
"A televisão aberta deixou de ser a fogueira da tribo para se tornar apenas mais uma tela acesa em uma sala vazia."
A estratégia recente da emissora da família Marinho revela um pânico silencioso. Observe a programação. O que vemos? Inovação? Risco? Não. Vemos um refúgio seguro na nostalgia. Pantanal, Renascer, e o vindouro Vale Tudo. A dependência de remakes não é uma homenagem ao passado glorioso; é um atestado de medo do futuro. Quando a sua maior aposta para 2024/2025 é reciclar textos de trinta anos atrás, o diagnóstico é claro: a criatividade perdeu a batalha para o algoritmo de retenção garantida.
A Falácia do 'Ecossistema'
O argumento de defesa é sempre o Globoplay. "Somos uma mediatech", dizem eles. Será mesmo? O streaming da casa funciona mais como um repositório de novelas antigas para tias saudosistas do que como um competidor real para a Netflix ou Disney+. A interface luta para ser amigável, e o conteúdo original, salvo raras exceções (como Os Outros), raramente fura a bolha da crítica especializada para cair na boca do povo (ou nos trends do TikTok).
E aqui entra o verdadeiro problema: o custo da relevância. Antigamente, a Globo fabricava estrelas. Hoje, ela contrata influenciadores na esperança de que eles tragam seus seguidores junto. Spoiler: não trazem. A atuação sofre, a dramaturgia vira skit de YouTube e o público tradicional, aquele que paga a conta da TV a cabo, sente-se alienado.
DADOS: O Abismo dos Números
Vamos comparar o que significava ser um "sucesso" há duas décadas e o que a emissora celebra hoje como vitória. A queda não é apenas uma mudança de hábito; é uma reconfiguração tectônica.
| Métrica | Era de Ouro (c. 2004) | Era Fragmentada (Hoje) |
|---|---|---|
| Audiência Novela das 9 | 50 a 60 pontos (Senhora do Destino) | 25 a 29 pontos (Celebrado como hit) |
| Concorrência | SBT e Record (TV Linear) | YouTube, Netflix, TikTok, Instagram |
| Elenco | Contratos de exclusividade vitalícia | Contratos por obra (Gig economy de luxo) |
Percebe a nuance? A Globo hoje celebra 28 pontos como se fosse goleada em final de Copa do Mundo. É o novo normal? Sim. Mas é um normal que sustenta uma estrutura de custos faraônica herdada do século XX?
O Dilema do BBB
Resta o Big Brother Brasil. A galinha dos ovos de ouro que, ironicamente, expõe a fragilidade do modelo. Por três meses, a emissora fatura bilhões e domina a conversa. Nos outros nove, luta para manter a luz acesa na mente do consumidor jovem. Quando sua programação depende visceralmente de um único reality show para fechar o ano no azul, você não tem uma grade de programação; você tem um evento sazonal com intervalos comerciais de nove meses.
A Globo não vai acabar amanhã. Ela ainda é grande demais, rica demais e politicamente influente demais. Mas a era do monólogo acabou. A Vênus agora precisa gritar para ser ouvida no meio de uma feira livre digital onde todos têm um megafone. E, por enquanto, a estratégia de gritar o mesmo texto de 1993 parece, no mínimo, arriscada.
Snob ? Peut-être. Passionné ? Sûrement. Je trie le bon grain de l'ivraie culturelle avec une subjectivité assumée. Cinéma, musique, arts : je tranche.

