Sociedade

A Barbie do Ice trocou Malibu pelo Pod de Melancia?

Ela usa rosa, mas não mora na casa dos sonhos. O fenômeno da 'Barbie do Ice' expõe como a Geração Z sequestrou um ícone infantil para validar vícios estéticos e químicos.

MS
Maria Souza
31 de janeiro de 2026 às 08:013 min de leitura
A Barbie do Ice trocou Malibu pelo Pod de Melancia?

Imagine a cena. Sábado à noite, fila de uma balada no centro expandido. Entre jaquetas de couro e tênis de mil reais, lá está ela: Júlia (ou seria Luana?), vestida num tom de rosa chocante que faria a retina de qualquer um vibrar. A maquiagem é impecável, quase plástica. Mas, ao contrário da boneca de 1959 que sorria estática na prateleira da Ri Happy, essa versão 2.0 exala uma nuvem densa e adocicada. Cheiro de menta com melancia.

Bem-vindos à era da Barbie do Ice.

Não se engane pensando que estamos falando de patinação artística. Estamos dissecando a colisão frontal entre a nostalgia infantil e a cultura do vape (os cigarros eletrônicos saborizados, popularmente chamados de "Ice"). Como foi que saímos do sonho da casa própria em Malibu para a dependência de nicotina sintética com estética de baddie?

👀 O que define a 'Barbie do Ice'?

É um arquétipo comportamental nascido no TikTok e Instagram. A estética mistura o Barbiecore (excesso de rosa, brilho, feminilidade exagerada) com elementos da cultura urbana e do consumo de pods (vapes). É a patricinha que não tem medo de parecer artificial; pelo contrário, ela abraça a artificialidade como estilo de vida.

A Mattel gastou milhões para reposicionar a Barbie como astronauta, presidente e engenheira. O que a cultura pop brasileira fez? Transformou-a na rainha do camarote que segura um copo Stanley numa mão e um dispositivo eletrônico de fumar na outra. É uma apropriação cultural reversa e fascinante. A boneca, historicamente um símbolo de perfeição inatingível, foi arrastada para a realidade suja (e perfumada) da vida noturna.

"A Barbie do Ice não quer ser salva pelo Ken. Ela quer que o Ken pague o combo de gin e recarregue a bateria do pod dela."

Há algo de profundamente cínico nessa reinvenção. O termo "Ice", que remete ao frescor e à insensibilidade, casa perfeitamente com uma geração que trata sentimentos e estética com a mesma volatilidade da fumaça que exalam. A boneca original era um lona em branco para as projeções de futuro das crianças. A Barbie do Ice é o presente imediato, hedonista e descartável.

Mas o que isso muda de verdade? Estamos vendo a normalização de hábitos nocivos embalados em plástico cor-de-rosa. O marketing da indústria do tabaco (agora eletrônico) nem precisou se esforçar: a própria cultura viral fez o trabalho sujo, associando o vício a um ícone de beleza inofensivo. É genial. É aterrorizante.

A Barbie sobrevive não porque a Mattel dita as regras, mas porque ela é elástica o suficiente para caber tanto na mão de uma criança de 5 anos quanto no bolso de uma universitária na balada. A diferença é que, agora, o acessório indispensável não é mais o conversível conversível rosa. É a fumaça sabor tutti-frutti que esconde, sob a doçura, uma realidade bem menos colorida.

MS
Maria Souza

Jornalista especializado em Sociedade. Apaixonado por analisar as tendências atuais.