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Milan S.A.: Quando o algoritmo tenta sequestrar a alma do Diabo

Esqueça a nostalgia de Van Basten. O novo Milan é uma planilha de Excel que sonha ser a Disney, mas a torcida não paga ingresso para ver o balanço financeiro no azul.

TS
Thiago Silva
15 de janeiro de 2026 às 20:313 min de leitura
Milan S.A.: Quando o algoritmo tenta sequestrar a alma do Diabo

Há algo de podre no reino da Lombardia? Talvez não podre, mas certamente asséptico demais para o gosto de quem cresceu vendo Maldini sujar o calção de lama no San Siro. O AC Milan, gigante adormecido que acordou brevemente para ganhar um Scudetto quase acidental em 2022, vive hoje uma crise de identidade que vai muito além das quatro linhas. É o conflito final entre o futebol como religião e o futebol como ativo de entretenimento.

A gestão da RedBird Capital, liderada por Gerry Cardinale, não esconde o jogo: eles querem transformar o Milan em uma empresa de mídia. O modelo é americano, eficiente, frio. Mas será que dá para aplicar a lógica do Moneyball em um lugar onde o café expresso é sagrado e a tática defensiva é uma forma de arte?

O problema de tratar torcedores como consumidores é que o consumidor troca de marca quando o produto piora. O torcedor sofre, chora e quebra o estádio.

A ilusão da sustentabilidade

Os números, dirão os defensores do projeto, não mentem. O clube saiu do vermelho. As contas estão sanadas. Parabéns. Mas desde quando a Curva Sud celebra EBITDA positivo? A venda de Sandro Tonali para o Newcastle foi o pecado original desta nova era. Venderam o capitão do futuro, um milanista de berço, para financiar a compra de três ou quatro apostas baseadas em algoritmos.

Funcionou? Christian Pulisic vende camisas nos EUA e joga bola, é verdade. Mas a alma do time parece ter sido trocada por métricas de "Expected Goals" (xG). O time corre, pressiona, mas falta aquele peso da camisa que fazia os adversários tremerem no túnel de acesso.

Duelo de Filosofias

Para entender o abismo entre o que o Milan foi e o que está se tornando, basta olhar para as prioridades de cada gestão. Não é apenas saudosismo; é sobre a função social do clube.

CritérioEra Berlusconi (O Romântico)Era RedBird (O Especulador)
EstratégiaComprar o melhor do mundo, custe o que custar.Comprar barato, valorizar e revender (Trading).
O EstádioSan Siro é um templo intocável.Precisamos de uma arena multiuso em San Donato.
ÍdolosIntransferíveis (até se aposentarem).Ativos com alta liquidez no mercado.

O fator Ibra: Escudo ou Espada?

E aqui entra Zlatan Ibrahimovic. Aposentado dos gramados, ele foi trazido de volta como "Consultor Sênior" (um título vago que serve para tudo e nada). A jogada da RedBird foi inteligente, cínica até: usar a figura mais intimidante da história recente do clube como para-raios.

Quando a torcida vaia, mandam o Ibra falar. Ele é o fiador dessa transição. Mas até quando o ego de Zlatan aceitará ser o rosto de um projeto que visa o lucro acima da glória esportiva? Ver o Milan em 2026 é assistir a um experimento social em tempo real: quanto tempo uma das marcas mais tradicionais da Europa aguenta ser gerida como uma startup do Vale do Silício antes que a cultura local a rejeite como um transplante de órgão malfeito?

O risco não é o Milan falir. O risco é o Milan se tornar um Arsenal dos anos 2010: rico, estável, com um estádio lindo, e absolutamente irrelevante nas noites de terça e quarta-feira, quando a música da Champions toca. E para o Diavolo, a irrelevância é um destino pior que a morte.

TS
Thiago Silva

Jornalista especializado em Esporte. Apaixonado por analisar as tendências atuais.