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A Vingança da Lagoa Azul: Por que a Sessão da Tarde enterra o algoritmo

Esqueça a paralisia de escolha da Netflix. O velho hábito vespertino da TV Globo não é apenas sobrevivência; é o último reduto de uma curadoria que une gerações (e o Twitter).

ÉC
Élise ChardonJournaliste
15 janvier 2026 à 19:313 min de lecture
A Vingança da Lagoa Azul: Por que a Sessão da Tarde enterra o algoritmo

Eram 15h30. O cheiro de café recém-coado pela avó invadia a sala, misturando-se com o zumbido estático da TV de tubo que aquecia. Você tinha dever de casa para fazer? Provavelmente. Mas na tela, Ferris Bueller estava matando aula e, por osmose, você sentia que estava cometendo um pequeno delito também. A "Sessão da Tarde" não era apenas um slot de programação; era uma babá eletrônica, um relógio biológico e, acima de tudo, uma certeza num mundo de incertezas infantis.

Corta para 2026. A lógica ditaria que esse formato estivesse morto e enterrado, sufocado sob o peso de catálogos infinitos de streaming e algoritmos predatórios. Mas a realidade é teimosa.

O conforto da falta de escolha

Vivemos na era da "paralisia de escolha". Você abre o catálogo da Netflix ou do Prime Video, rola por 40 minutos, discute com o cônjuge, desiste e vai dormir (ou assistir a vídeos curtos no TikTok). A Sessão da Tarde oferece o luxo oposto: a curadoria imposta. Alguém, em algum lugar nos corredores da Rede Globo, decidiu que hoje é dia de “De Repente 30”. E você aceita. É libertador.

CritérioSessão da Tarde (TV Aberta)Streaming (VOD)
Tomada de DecisãoZero (Passividade relaxante)Alta (Fadiga de decisão)
Fator SocialComentário simultâneo no TwitterAssincrono (cada um vê na sua hora)
CustoAtenção aos comerciaisMensalidade recorrente

Não se trata apenas de preguiça mental. É sobre pertencimento. Quando “A Lagoa Azul” passa pela enésima vez, não é sobre a qualidade cinematográfica questionável ou o enredo datado. É um ritual coletivo. O Twitter (ou X, para os puristas) explode em memes. A TV aberta, ironicamente, tornou-se a fogueira digital onde nos reunimos para contar as mesmas histórias de sempre.

A máquina de memórias (e dinheiro)

Você pode achar que é apenas nostalgia barata, mas os anunciantes discordam. O slot da tarde atinge donas de casa, estudantes, home officers e desempregados com uma precisão que o tráfego pago muitas vezes inveja. É o ruído de fundo perfeito. A audiência, embora menor que nos anos 90, é fiel. E fidelidade, hoje, vale mais que ouro.

👀 Quais são os verdadeiros campeões de reprise?
Embora a lenda urbana diga que "A Lagoa Azul" passa toda semana, a realidade é diferente. O filme mais exibido na história da sessão é, na verdade, "Ghost: Do Outro Lado da Vida", seguido de perto por clássicos da Disney e comédias de Adam Sandler. A "Lagoa" aparece muito menos do que nossa memória afetiva sugere!

Além disso, o cinema da tarde serve como uma âncora de realidade. Num mundo onde as tendências duram 15 segundos e somem, rever “Esqueceram de Mim” é a prova de que o passado existiu. Que houve um tempo em que as coisas eram mais simples (ou pelo menos, pareciam ser na tela de 20 polegadas).

A resistência da Sessão da Tarde prova uma tese fundamental sobre o consumo de mídia moderno: nem sempre queremos conteúdo novo, desafiador ou em 4K. Às vezes, só queremos o abraço quentinho do conhecido, mesmo que ele venha dublado e com cortes comerciais.

ÉC
Élise ChardonJournaliste

Snob ? Peut-être. Passionné ? Sûrement. Je trie le bon grain de l'ivraie culturelle avec une subjectivité assumée. Cinéma, musique, arts : je tranche.