O xadrez de R$ 1 bilhão: o plano do Premiere para não afundar
Esqueça o monopólio confortável de antigamente. Com direitos pulverizados e a sombra da pirataria, o serviço da Globo precisou adotar uma tática de guerrilha para manter seus assinantes no jogo.

Eu vi os números brutos. Quando a bola rolou para o atípico Brasileirão de 2026 (sim, aquele que agora invade o verão e só termina em dezembro), os executivos não estavam olhando para o gramado. Eles olhavam para os gráficos de conversão de assinaturas. O Premiere, outrora a galinha dos ovos de ouro do pay-per-view nacional, joga hoje sua partida mais sufocante.
Por quê? Porque a era de cobrar mais de cem reais por um pacote de TV a cabo evaporou. O mercado mudou, os direitos foram fatiados entre a Liga Forte União (LFU) e a Libra, e a concorrência agora atende por nomes como Prime Video e CazéTV.
| Métrica | A Era de Ouro (Pré-2022) | A Tática de Guerrilha (2026) |
|---|---|---|
| Preço Médio | Cerca de R$ 110 (via operadoras) | R$ 29,90 (plano anual direto) |
| Volume de Jogos | 100% de exclusividade | 9 de 10 jogos por rodada |
| Base de Assinantes | Estagnada nas operadoras | Recorde de 3 milhões |
O corte drástico no preço gerou o recorde absoluto de 3 milhões de pagantes ativos na plataforma. Sucesso absoluto, certo? Errado. Se você puxar a cadeira e sentar na mesa de finanças do Grupo Globo, descobrirá que a operação, hoje, não dá lucro direto. O dinheiro que entra serve quase que exclusivamente para cobrir o cheque astronômico repassado aos clubes pelos direitos de transmissão. O Premiere virou um complexo mecanismo de subsídio.
O verdadeiro adversário não é a Amazon ou o Casimiro. (Eles até dividem a torta de maneira civilizada e complementar). O monstro sob a cama atende por um nome incômodo: pirataria.
"De cada cinco pessoas que assistem ao Premiere por rodada, quatro não pagam a mensalidade. Nossa capacidade de oferecer preços cada vez mais baixos tem um limite."
O que isso muda na prática? Se você acha que a conta sobra apenas para a emissora, pense novamente. O modelo atual de negócios atrela o repasse aos clubes diretamente ao número de CPFs assinantes declarados. Quando o sinal pirata vence a barreira de segurança, o time do seu coração sangra na mesma proporção. Estima-se um buraco invisível de meio bilhão de reais no mercado anualmente por conta de quem consome sem pagar.
A reengenharia do Premiere não foi uma escolha de inovação glamourosa. Foi um instinto básico de sobrevivência corporativa. Eles abaixaram as portas para a venda direta, driblaram as engessadas operadoras de TV e garantiram 90% dos jogos da rodada para não perder a relevância na mesa dos torcedores. A grande dúvida que paira nas salas de reunião não é mais sobre quem tem os direitos do campeonato, mas até quando a matemática suportará essa hemorragia financeira silenciosa.


