Culture

Felca no Roblox: Um Mergulho Antropológico no Caos da Geração Alfa

Esqueça os objetivos do jogo. Quando o youtuber entra nos servidores de voz, ele não está jogando — está documentando, com humor ácido, a anarquia social que define a nova internet.

ÉC
Élise ChardonJournaliste
15 janvier 2026 à 18:013 min de lecture
Felca no Roblox: Um Mergulho Antropológico no Caos da Geração Alfa

Imagine entrar em um recreio escolar. Agora, tire os professores, dê megafones para todas as crianças e permita que elas mudem de identidade a cada dez segundos. Parece um pesadelo? Para Felipe Bressanim, o Felca, é apenas uma terça-feira. Quando esse youtuber brasileiro — conhecido por desbravar o "chorume" da internet — decide ligar o chat de voz do Roblox, ele não está produzindo gameplay. Ele está fazendo sociologia de guerrilha.

Não se engane pensando que isso é apenas sobre um jogo de blocos.

"Onde que eu tô? Quem tá gritando? Por que tem um personagem do Shrek vendendo curso de day trade?" — A reação padrão de qualquer pessoa acima de 25 anos ao entrar num servidor público do Roblox.

A primeira vez que assisti a um desses vídeos, a sensação foi de vertigem. Felca, com sua expressão habitual de tédio misturada com horror genuíno, serve como nosso guia (e escudo) nessa selva digital. O fenômeno "Felca no Roblox" transcende o humor óbvio dos gritos estourados no microfone. É uma janela escancarada para como a Geração Alfa interage quando acha que ninguém está olhando.

A Anarquia como Linguagem

O que fascina nesses vídeos não é a mecânica do jogo. Ninguém liga se o parkour foi completado. O ouro está na interação social crua. O chat do Roblox, especialmente o de voz (o famigerado voice chat), virou uma praça pública sem leis. Ali, crianças de oito anos negociam "famílias" virtuais, simulam assaltos com um realismo desconcertante e trocam insultos que fariam um marinheiro corar.

Felca atua como o forasteiro. Ele entra, faz uma pergunta simples e o caos se instala. É o choque geracional televisionado. Ele expõe a performatividade dessas crianças: elas não estão apenas jogando; estão atuando para uma plateia invisível, replicando comportamentos de influenciadores, memes do TikTok e dramas de novelas, tudo misturado numa sopa quântica de absurdo.

👀 Por que adultos estão viciados em assistir isso?
A resposta curta: catarse e curiosidade mórbida. Assistir ao Felca navegar por esse hospício digital permite que o público adulto "espione" a nova geração sem precisar interagir diretamente com ela (o que seria exaustivo). É o prazer de observar o caos de uma distância segura, rindo do abismo cultural que separa quem cresceu com MSN de quem cresce com skins de skibidi toilet.

O "Roleplay" da Vida Real

O ponto de virada nessa análise (sim, estamos analisando bonecos quadrados) é perceber que o chat do Roblox é o laboratório social mais rápido do mundo. Uma moda surge às 14h, satura às 15h e vira motivo de bullying às 16h.

Quando Felca ironiza a "Base da Virgínia" ou invade servidores de namoro virtual, ele revela uma verdade incômoda: a barreira entre o "eu digital" e o "eu real" simplesmente não existe para esses nativos. A interação é fluida. O absurdo é a norma.

Isso muda nossa percepção sobre o futuro da comunicação online. Não estamos caminhando para um Metaverso polido e corporativo como Mark Zuckerberg sonhou. O futuro é o servidor público do Roblox: barulhento, quebrado, criativo e absolutamente incontrolável. E precisamos de figuras como o Felca para traduzir esse ruído antes que ele nos ensurdeça.

ÉC
Élise ChardonJournaliste

Snob ? Peut-être. Passionné ? Sûrement. Je trie le bon grain de l'ivraie culturelle avec une subjectivité assumée. Cinéma, musique, arts : je tranche.